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13 de abril de 2010

Sobre Educomunicação

"Quando os primeiros computadores chegaram às escolas pública brasileiras, por volta de 1995, ao mesmo tempo que que foram celebrados pela classe política, causaram calafrios aos educadores. O que fazer com aqueles elefantes brancos parados numa sala?

Eles tinham razão em perguntar. A capacitação profissional para aquela geração de educadores chegou com um atraso tremendo, causando um gap tecnológico entre educador (que tinha nascido na época das velhas "Remingtons") e educando (que nasceu informatizado).

Na época, repórter de uma revista especializada, cheguei a assisir a uma "aula" de como ligar e desligar um micro! Muitas salas de tecnologia permanecem trancadas à chave até hoje; imagem que lembra aquela de livros empoeirando em uma biblioteca, porque ninguém deve manuseá-los para não "estragá-los".

A dúvida que paira daquele tempo para cá, em que laptops são os "elefantes" do momento, é: o que fazer com essa tecnologia em sala de aula. Computadores não educam sozinhos; nem livros. Ambos são meios, ou recursos, para uma potencial prática pedagógica, que pode ser interessante e eficiente. Práticas essas, inclusive, que a escola pública, que recentemente se universalizou, busca para melhorar a qualidade do seu ensino.

Algumas experiências espalhadas no Brasil utilizam a estrututa de tecnologia da escola para a produção de mídia pelo alunos. Os estudantes criam jornais, fanzines, rádios via Internet e até vídeos sobre sua comunidade e escola. Aprendem assim sobre o funcionamento da mídia e tem a oportunidade de expressarem-se sobre os mais diversos temas que os tocam. Na universidade, surge um campo novo de estudo chamado educomunicação: interseção das áreas da educação e da comunicação.

O campo é recente, mas não a prática. O sociólogo francês Célestin Freinet (1896 - 1966) cunhou o termo "imprensa escolar" e desenvolveu centenas de jornais feitos por estudantes no sistema público da França como forma de envolver e ampliar a participação dos estudantes no cotidiano comunitário. Já o célebre Janusz Korczak (1878 – 1942) utilizou a comunicação como forma de resistência de estudantes e professores no começo da ascenção nazista. Ambos em épocas em que o conceito de mídia de massa ainda era bem difuso.

Hoje, a relação do estudante com a mídia de massa, produção de informação e a tecnologia já existe independente da escola querer ou não trabalhar com isso tudo. O mundo da comnicação é mais atrativo, dinâmico e rápido que a o da educação. Chega bem antes ao aluno. Na pior das hipótestes é melhor ter a mídia de massa como aliada, do que como inimiga. Por isso, as experiências atuais de educomunicação passam por ler, interpretrar e analisar a mídia, mas também produzir informação de qualidade.

Fiquei surpreso ao encontrar, no último dia 28 de fevereiro, mais demais de mil professores da rede pública no Ceará, de cerca 40 municípios, para discutir a participação do jovem na escola por meio de jornais (ainda mais em uma "ponte" de feriado canavalesco). Tratava-se de um congresso organizado pela ONG Comunicação e Cultura, que estimula atualmente mais de 1000 jornais em escolas pela Ceará, Bahia, Pará e Rio Grande do Norte.

Mesmo sendo a educomunicação uma prática crescente, a escola pública ainda olha com desconfiança para o que acontece fora de seus muros. Não diferentemente do que aconteceu há quase cem anos: o destino de Freinet foi a expulsão do sistema formal de ensino da França; e o de Korczak, a câmara de gás.

Mas os tempo mudaram na França atual: o Clemi, laborátório referência no estudo das relações entre educação e comunicação, aprovou junto ao Congresso o trabalho com mídia como prática curricular escolar.

Por aqui, em época de discussão sobre currículum no ensino médio - a nova pauta do MEC - seria adequado olhar mais para fora dos muros da escola. Prestar atenção na informação consumida e produzida por nossos estudantes. Um estudo recente do Unicef (Aprova Brasil), analisando minuciosamente as escolas com nota acima média no prova Brasil, reconheceu que sua maioria realiza programas que envolvem os estudantes nas discussões da comunidade e da escola – muitos deles programas de produção de mídia.

No projeto Mais Educação do MEC (de educação integral para o primeiro ciclo do ensino fundamental), a educomunicação já é uma das opções de adesão para as escolas. Mas essa é ainda uma discussão fora da coluna vertebral da educação: o curriculum.

Afinal, aparatos tecnológicos não vão parar de chegar, cada vez mais baratos, às escolas; se as práticas pedagógicas não acompanharem esse ritmo, vão virar, rapidamente, peças inúteis de um museu de novidades."

Autor: Alexandre Sayad
Fonte: O Estado de São Paulo

21 de maio de 2009

Educomunicação - Considerações

A educomunicação é um campo de convergência não só da comunicação e da educação, mas de todas as áreas das ciências humanas. Essa idéia foi apresentada pelo professor Ismar de Oliveira Soares, da ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), durante o Seminário Educação e Comunicação: um debate contemporâneo, promovido pela FEUSP (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo) e pelo mestrado em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi, realizado entre os dias 6 e 8 de novembro de 2001, nos campi das duas instituições. Junto com Oliveira Soares, compondo a mesa-redonda “Educação na comunicação: uma questão de ética”, participaram também Maria da Graça Jacinto Setton, da FEUSP, e Paulo Vasconcelos, da Universidade Anhembi Morumbi.

A participação de Ismar de Oliveira Soares iniciou-se com a apresentação de um vídeo sobre a Fundação Casa Grande, uma espécie de centro cultural freqüentado por crianças e jovens da cidade de Nova Olinda (CE), e onde o conceito de educomunicação está sendo desenvolvido. O texto do vídeo fala que as crianças participam brincando, tomam decisões até para manter o funcionamento da organização não-governamental, que visa resgatar a história e a cultura do povo sertanejo. Segundo o vídeo, Casa Grande tem 16 diretores, entre 10 e 18 anos, responsáveis por um orçamento de R$ 1.200,00. Mesmo com o pouco dinheiro, conseguem manter uma rádio e uma televisão comunitária.

Após a apresentação do vídeo, Oliveira Soares abordou o conceito de educomunicação. Ele disse que a ECA/USP está investigando o assunto, que surgiu de realidades existentes desde os anos de 1950. O professor da ECA entende que muitas pessoas decidiram intervir na sociedade para reconstruí-la e que a defesa do meio ambiente, nesse sentido, virou uma norma, envolvendo empresas, indivíduos e sociedade. “Isso foi alcançado graças a um grande esforço produzido de forma alternativa até atingir a grande mídia, com a participação de comunicadores, educadores e de pessoas das mais diversas áreas, que se juntaram e passaram a trabalhar com referenciais teóricos e metodológicos de várias áreas das ciências humanas e acabaram constituindo um movimento social em torno da cidadania, da democracia e em torno da luta para quebrar a hegemonia dos sistemas estabelecidos”, esclareceu Oliveira Soares, salientando que o conceito de educomunicação surgiu nesse contexto. “Não, portanto, como fruto de reflexões de grandes teóricos e grandes filósofos, mas a partir de uma prática de cidadania”.

Segundo Oliveira Soares, a universidade olha para as experiências com o objetivo de sistematizá-las. “Uma pesquisa realizada na ECA, nos últimos anos, ao identificar a seqüência dessas experiências e sua natureza, acabou mudando a emergência de um campo que não é exatamente o da educação tradicional nem o da comunicação, porém seria um campo de convergência, não só dessas duas áreas, comunicação e educação, mas de todas as áreas das ciências humanas; e que tem na busca da cidadania e da participação a sua força”, explicou, frisando também que é um campo frente ao qual há resistências. “A educação tradicional olha para essa área como algo que, às vezes, pode estar ameaçando a sua ortodoxia; e a comunicação olha para esse campo como algo pobre, algo de gente que não está no mercado”.

Apesar das resistências, Oliveira Soares ressaltou que a educomunicação vai ganhando força de uma “forma incontrolável” junto aos sistemas tradicionais. Um exemplo pode ser verificado, segundo o professor, com o programa educom.rádio, que está envolvendo cerca de 110 pessoas trabalhando com 30 escolas. O objetivo é de discutir o conceito de educomunicação, com questões teóricas e, especialmente, práticas. Uma abordagem possível é verificar “como através de um meio de comunicação (no caso o rádio, mas pode ser outro veículo) a comunidade escolar passa a discutir o seu ecossistema comunicativo e como ele poderia estar sendo gerenciado”.

Ismar de Oliveira Soares, que é responsável pela supervisão geral do projeto, estima atingir cerca de 455 escolas do município, formando mais de 9 mil educomunicadores no final do projeto. “O grande objetivo é que os educadores e as crianças, juntos, se perguntem quais são os coeficientes comunicacionais de nossas ações e como podemos transformar o nosso espaço em espaço de vida”, explicou.

Dentro de algumas observações sobre o tema, Oliveira Soares e a equipe que integra o projeto entendem que educomunicação é “um campo de implementação de políticas de comunicação educativa, tendo como objetivo geral o planejamento, a criação e o desenvolvimento de ecossistemas educativos mediados por processos de comunicação e pelo uso das tecnologias da informação”. Seus objetivos específicos, segundo Ismar de Oliveira Soares, são: promover o acesso democrático dos cidadãos à produção e difusão da informação; identificar como o mundo é editado nos meios; facilitar o processo ensino-aprendizado através do uso criativo dos meios de comunicação (entra tecnologias, vista a partir não da tecnologia em si, mas de suas características e da importância de ter acesso a eles); promover a expressão comunicativa dos membros da comunidade educativa.

Para ilustrar esses horizontes, o professor da ECA leu algumas linhas escritas por uma criança que participa do projeto educom.rádio:

Quero uma escola que eu realmente me encontre, em que eu realmente me ache. Eu quero ter em uma escola a possibilidade dos meus auges serem totalmente alcançados. É o que eu quero da minha escola. Desejo nela dar respeito que admiro, ser respeitado por todos e ainda mais quero olhar para os meus professores e admirá-los assim como alguns eu já admiro. Neles, eu e todos os verdadeiros alunos nos espelhamos acima do meu respeito e admiração pelo carinho que sinto de forma igual como sou tratado. Desejo uma escola que, na verdade, eu me identifique e que eu tenha direito de falar e realmente de ser escutado. Quero uma escola que me ajude a encontrar o caminho certo e que me permita opinar no que acho que está errado.

Autor: Ebenezer de Menezes, da Agência EducaBrasil

15 de março de 2009

Educomunicação - Que bicho é esse?

MAS, AFINAL, O QUE É EDUCOMUNICAÇÃO?

Profº Dr. Ismar de Oliveira Soares Coordenador do Núcleo deComunicação e Educação da ECA/USP

Num dos encontros promovidos pelo projeto Educom. rádio, em São Paulo, no primeiro semestre de 2004, uma cursista procurou a articuladora para perguntar-lhe:
- Afinal, o que é Educomunicação?
Em seguida, explicou a razão de sua dúvida: tivemos muitas palestras, algumas sobre comunicação e outras sobre assuntos relacionados aos temas transversais. Tivemos workshops e oficinas sobre produção radiofônica. Tudo muito interessante, mas não ficou claro o que tem tudo isso a ver com a falada educomunicação...
A articuladora logo retrucou:
- Mas você não se lembra da palestra do Prof., Ismar, na reunião conjunta no Liceu Coração de Jesus, no dia de março?
- Já faz tempo! Disse a professora, dando a entender que faltava um elo de conexão entre o que fora dito no início do curso e o que passou a ocorrer depois.
A indagação da professora preocupou-me, pois implantar a educomunicação nas escolas públicas do Município de São Paulo como filosofia e metodologia de trabalho é justamente o objetivo de nosso curso.
Para que fique claro sobre o que estamos falando, recordo, para a professora que manifestou sua dúvida, bem como para todos os cursistas do Educom.rádio, que, para oNCE-ECA/USP, a Educomunicação define-se como um conjunto das ações destinadas a:
1 - integrar às práticas educativas o estudo sistemático dos sistemas de comunicação (cumprir o que solicita os PCNs no que diz respeito a observar como os meios de comunicação agem na sociedade e buscar formas de colaborar com nossos alunos para conviverem com eles de forma positiva, sem se deixarem manipular. Esta é a razão de tantas palestras sobre a comunicação e suas linguagens);
2 - criar e fortalecer ecossistemas comunicativos em espaços educativos , o que significa criar e rever as relações de comunicação na escola, entre direção, professores e alunos, bem como da escola para com a comunidade, criando sempre ambientes abertos e democráticos. (Muitas das dinâmicas adotadas no Educom apontam para as contradições das formas autoritárias de comunicação);
3 - melhorar o coeficiente expressivo e comunicativo das ações educativas (Para tanto, incluímos o rádio como recurso privilegiado, tanto como facilitador no processo de aprendizagem, quanto como recurso de expressão para alunos, professores e comunidade);
A Educomunicação necessita que sejam observados alguns procedimentos sem o quais fica irreconhecível, entre os estes:
a) É necessário prever e planejar \'conjuntos de ações\', no contexto do plano pedagógico das escolas, e não ações isoladas (uma ação isolada não modifica as relações de comunicação num ambiente marcado por práticas autoritárias de comunicação);
b) Todo planejamento deve ser participativo envolvendo todas as pessoas envolvidas como agentes ou beneficiárias das ações (por isso, convidamos os professores, alunos e membros das comunidades a desenvolverem planejamentos conjuntos);
c) As relações de comunicação devem ser sempre francas e abertas (a educomunicação busca rever os conceitos tradicionais de comunicação, como se existisse apenas para persuadir ou fazer a boa imagem dos que detêm poder e fama. Aqui, a comunicação é feita para socializar e criar consensos);
d) O objetivo principal é o crescimento da auto-estima e da capacidade de expressão das pessoas, como indivíduos e como grupo. Aliás, este é o grande objetivo também do Projeto Vida, que sustenta e dá o suporte necessário para que o Ecucom.rádio exista e se desenvolva plenamente.
–E o rádio, professor, onde fica? Pode alguém perguntar. Ao que respondo:
–Existe um recurso da comunicação mais versátil e mais democrático, em seu uso efunções, do que o rádio?
Se o leitor ou leitora ainda tiver dúvidas sobre os objetivos do Educom.rádio e sobre o conceito de educomunicação, certamente os colegas e os próprios estudantes poderão ajudar a responder. Afinal, somos uma comunidade de aprendizes!

Fonte: http://www.usp.br/nce/aeducomunicacao/saibamais/textos/

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